segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A luta de Michael Vick

Ele não é o melhor exemplo de atleta do mundo. Pelo menos, não era. A história de Michael Vick é mais conhecida pelo que ele fez de errado do que pelo certo. Com um começo de carreira brilhante, Vick foi draftado (contratado) para jogar futebol americano profissional durante a faculdade, em seu segundo ano.

Em 2001, o Atlanta Falcons era o time que iniciaria Draft da NFL. O jovem Michael Vick foi o escolhido e fez história por ser o primeiro Quarterback negro a ser o primeiro do Draft. Camisa 7 dos Falcons, Vick levou o time aos playoffs por duas vezes durante as seis temporadas em que atuou por lá.

Seis, pois sua carreira foi interrompida em 2007.

Em abril daquele ano, Michael Vick foi acusado de organizar um esquema de briga de cães, que ocorria havia cinco anos. Quatro meses depois, ele foi preso, após confessar ser culpado. Foram 21 meses de prisão, dois meses de prisão domiciliar, quebra de contrato com a NFL, e com todos os patrocínios que tinha.

Apenas sete anos (julho/2008) após o início promissor na liga de futebol americano profissional, Vick havia declarado falência, depois de ter sido dispensado pelo Atlanta Falcons e de uma possível troca por outro jogador ter sido descartada.

O então ex-quarterback era o único da história da NFL a ter corrido mais de mil jardas em uma temporada (2006). Pelo lado psicológico, continuava a ser um ex-quarterback, lutando por espaço e tentando armar uma volta aos campos.

Na temporada de 2009, Vick foi re-integrado à NFL. Sua nova casa seria em Philadelphia, com os Eagles, que contavam dois quarterbacks no elenco: a lenda local, Donovan McNabb, e o jovem Kevin Kolb. Por isso, Michael pouco atuou, mas treinou muito com sua nova equipe.

Até que, em 2010, após onze temporadas de serviços aos Eagles, McNabb foi para o Washington Redskins e seria a grande chance de Kolb se destacar, com Vick como sua sombra, um “reserva de luxo”. Logo no primeiro jogo da temporada – contra os Packers – Kolb se machucou e “obrigou” o camisa 7 a entrar em campo: Vick passou para um Touchdown e correu 103 jardas, mas os Eagles perderam.

O torcedor de Philadelphia chegou a ressucitar suas lembranças de McNabb e do running back Brian Westbrook, negociado com os 49ers, mas no segundo jogo, contra o Detroit Lions, fora de casa, Vick passou para mais dois Touchdowns e os Eagles venceram: 35-32.

Durante a semana, Kevin Kolb se recuperou de sua contusão, mas o técnico Andy Reid disse: Vick será o titular contra o Jaguars. Deu certo: três passes para Touchdowns, 30 jardas corridas e mais um Touchdown conquistado por ele mesmo. Michael Vick voltou a ter um dia de glória, após vários anos (Veja aqui os melhores momentos do jogo).

O preconceito por parte dos torcedores da NFL ainda é grande. Muitos julgam Vick como culpado para sempre, como se ele nunca pudesse voltar a jogar. Imagens e montagens circulam pela internet, sátiras, provocações e mensagens de conscientização. O mais fácil de se dizer é que Vick é um mal exemplo para quem assiste a NFL (maioria dos norte-americanos e boa parte do mundo).

Em campo, o camisa 7 dos Eagles faz o mais difícil e mostra que não, não é (mais) um mal exemplo. Mais do que qualquer um que o rotula, Michael Vick sabe que errou. Esteve nas ruínas e tenta voltar, aproveitando a chance que lhe foi dada, por meio da superação.

O quarterback quer ser reconhecido pelo certo, novamente. A luta de Michael Vick volta a ser aquela, de 2001: ter uma carreira brilhante.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ninguém é maior do que o Santos

Neymar da Silva Santos Júnior nasceu, para a vida, em 1992 e, para o futebol, não muito tempo depois. Aos 14 anos de idade, o jovem já era pauta de reportagens do Esporte Espetacular e outros programas, pois havia a especulação de que o Real Madrid o levaria para jogar no Santiago Bernabéu.

Uma das reportagens mostrava Neymar no estádio, ao lado de seu pai e empresário, e dizia que o menino jogava muita bola, era fora de série e que o time de Madrid já o via em solo espanhol. No entanto, o Santos foi firme, e segurou o menino no Brasil.

Em 2009, aos 17 anos, Neymar estava no time profissional, sob o comando de Vanderlei Luxemburgo. Foi pouco aproveitado e o então técnico do Peixe dizia que o atacante ainda não havia amadurecido. Meses depois, Vanderlei se foi e Neymar ficou.

Veio, então, o ano de 2010. A diretoria do Santos foi bem e contratou o técnico Dorival Júnior, que havia acabado de subir com o Vasco para a Série A do Campeonato Brasileiro. Com Dorival, veio uma mudança, não tão grande, se for levada em conta a história do Santos.

Pelé tinha 17 anos quando despontou para o mundo, em 1958. Em 2002, Robinho tinha 17 e Diego, 16. Em 2010, Neymar e Paulo Henrique Ganso, estavam na média. Se tudo ocorresse como nas outras vezes, estaria formado um time campeão.

O primeiro semestre do ano foi incrível, ninguém bateu o Santos. O time perdeu, sim, alguns jogos, mas nada decisivo, e foi campeão – com sobras – das duas competições que disputou: o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil.

Estava coroada uma nova geração de campeões do Santos, repetindo 1958 e 2002. Só que, como os tempos atuais são outros, logo a nova geração santista começou a se desfazer: Wesley foi para o Werder Bremen e André para o Dinamo Kyiv. Ganso recebeu propostas do Lyon, não suficientes e Neymar, propostas do Chelsea.

Brilhantemente, a diretoria santista recusou a oferta e ofereceu um plano de carreira ao jogador, com benefícios que (muito) poucos jogadores têm em terras brasileiras. Revoltados, os dirigentes do Chelsea disseram que os santistas estavam loucos.

Desde então, tudo mudou. Neymar não desaprendeu o futebol, mas se colocou em um pedestal. O jogador, temido pelos adversários, já era tido como não muito comportado em campo e isso só aumentou. Perdeu pênaltis na Copa do Brasil e no Brasileirão e, com isso, perdeu também o posto de batedor oficial de penalidades do Santos.

Contra o Atlético-GO, Marcel foi o indicado por Dorival Júnior para bater a penalidade. Neymar se revoltou, xingou o treinador, fez cera, driblou inutilmente e, ainda assim, o Santos venceu o jogo, por 4x2.

Como conseqüência pela revolta, Neymar sofreu multa no salário e foi afastado do jogo contra o Guarani. Todos esperavam que ele voltasse contra o Corinthians. Dorival Júnior, não.

O resultado: hoje, 22 de setembro de 2010, o Brasil acordou com uma notícia esportiva nas manchetes: Dorival Júnior foi demitido do Santos. Em nota oficial (clique aqui e veja), o presidente do clube, Luiz Álvaro de Oliveira, explica:

“Considerando que mais de uma vez Dorival Jr. quebrou a hierarquia do clube, a sua permanência ficou insustentável.

Reiteramos que não toleramos atos de indisciplina dos nossos atletas, mas também não podemos concordar que ninguém se julgue maior do que o Santos FC.”

Ninguém é maior do que o Santos. Ouviu, Dorival? Só o Neymar.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O preço e os benefícios de ser o melhor do mundo

Lionel Messi é, indiscutivelmente, o melhor jogador do mundo. O argentino foi autor de 34 gols, em 35 jogos na última temporada pelo Barcelona, isso sem falar no(s) show(s). Na África do Sul, ele tentou, mas não conseguiu furar os bloqueios adversários. Todos os holofotes estavam virados em sua direção e os zagueiros, também.

Começa a temporada 2010-2011 na Europa e um jogador chama a atenção nos campos espanhóis. O nome dele? Messi, obviamente. Em um time cheio de estrelas e base da seleção campeã do mundo, o argentino é o destaque. Imagine aquele time da Espanha que entrou em campo no Soccer City no dia 11/7/2010, com Messi no lugar do apagado Fernando Torres, na ocasião. Esse é o Barcelona.

Após a derrota para o Hércules no primeiro jogo da Liga Espanhola, o Barça mostrou a que veio contra o Panathinaikos, em jogo válido pela UEFA Champions League. Começou perdendo por 1x0, mas virou, e como, para 4x1. Poderia ter sido 5,6,7,8 e por aí vai. Foi um show.

Na oportunidade, Messi marcou dois gols, participou de outro, marcado por Daniel Alves, e ainda se deu ao luxo de perder um pênalti (frustrando os que contam com ele no Fantasy da ESPN Brasil). A cada jogo, surgem mais e mais comparações com Diego Maradona. Inevitáveis, mas o melhor do mundo ainda pode mais, com seus 23 anos.

Na segunda rodada do Campeonato Espanhol, o Barcelona foi a Madrid, enfrentar o Atlético, de Diego Forlán. Messi deixou a sua marca em mais um belo gol, como já vem virando rotina. Os catalães venceram por 2x1, sendo que o gol vitorioso foi marcado pelo zagueiro Pique. No entanto, isso pouco importou.

Com o jogo já ganho, aos 47 do segundo tempo, Messi “recebeu” uma entrada do zagueiro tcheco Tomas Ujfalusi e saiu do campo de maca, chorando. O mundo se assustou, viu uma tragédia e Ujfalusi foi expulso de campo.

Rapidamente, cinco médicos cercaram o argentino, além de praticamente todos os jogadores de Barcelona e Atlético. E do mundo todo. Novamente, todos os holofotes estavam virados em sua direção, mas não com a vontade de vê-lo jogar, mas, sim, com medo.

No entanto, ontem, um dia após o jogo e a lesão, foi constatado que Messi sofreu um leve trauma no tornozelo direito e estará de volta para atormentar as defesas por aí em dez dias. Com isso, o argentino perderá duas partidas do Espanhol, contra Sporting Gijon e Athletic Bilbao.

Hoje, dois dias após o jogo e a lesão, a imprensa espanhola divulga que Ujfalusi pode pegar doze jogos pela entrada em Messi. O técnico do Atlético de Madrid, Quique Flores, disparou: "Sólo pasan estas cosas cuando son Messi o Cristiano los perjudicados." (Via marca.com)

Ex-zagueiro, Flores completou: “Todo acontece así porque es Messi el protagonista. No es una entrada descabellada; sí es dura y sobre todo desfortunada”. O agora técnico conhece seu jogador e sabe (pelo menos acredita) que não há motivos para uma entrada dura, aos 47 do segundo tempo, com o jogo já perdido.

De certa forma, Quique Flores não está errado. Podemos tomar como exemplo o zagueiro Martin Taylor, que atuava pelo Birmingham em 2008 e quebrou a perna do brasileiro-croata Eduardo da Silva, em uma entrada mais do que violenta (veja aqui o lance, incrível).

Enquanto Eduardo foi rapidamente levado a um hospital, praticamente desacordado, e ficou de fora do futebol por um ano, Taylor foi expulso e tomou, apenas, três jogos de suspensão. Eduardo não é o melhor do mundo e não muitos torcedores, além dos do Arsenal na época, se revoltaram contra a punição a Taylor.

Se pensarmos no Brasil, nada se resolve no gramado e, sim, no STJD. É tudo ao contrário, as punições previstas no regulamento, que podem chegar a 120 dias, às vezes, se tornam um jogo ou dois, no máximo, além do pagamento de cestas básicas. Porém, vamos deixar o país do futebol – e do tapetão – de lado, senão isso vira um livro, e voltar ao melhor do mundo.

Messi recebe, sim, os holofotes e paga o preço de ser o melhor do mundo. Joga muito futebol e, por isso, sofre dura marcação, muitas faltas e atormenta os zagueiros, é claro. Tomas Ujfalusi foi apenas mais um a sofrer com o argentino e paga o preço, por também fazê-lo sofrer, podendo ficar de fora de La Liga por doze partidas.

Ser o melhor do mundo também tem os seus benefícios.